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2:37 h. Domingo, 20 de Abril do 2014

Opinión

Diego Amoedo

Diego Amoedo

Antropólogo galego a completar estudos no Brasil
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Quem foge de quem?

Essa é a pergunta que nos fazemos ainda perplexos, depois de que o passado dia 16 de abril os deputados federais brasileiros começaran a correr apavorados pela sala do plenario, após a entrada no salão de um grupo de representantes e lideres de diferentes povos indígenas.

O que estava sendo debatido no congreso era a Proposta de Emenda à Constituição (PEC 215), cujo objetivo é o de retirar da Fundação Nacional ao Índio (FUNAI) e do poder executivo (Presidência da República) a decissão de demarcar Terras Indígenas – seguindo parâmetros e documentos técnicos – e entregando o poder de decissão aos representantes políticos do congresso nacional e senado, enfim ao poder legislativo. Congresso no que vale frisar que a conhecida como bancada ruralista é um dos grupos mais influentes. Eles são os defensores e representantes dos interesses dos latifundiários, dos grandes proprietários de terras, das pontas de lança da oligarquia do agronegocio, que atopa neste grande país todo tipo de facilidades e amparos nos poderes legislativos e judiciais, para poderem continuar impunes com sua devastadora atividade. Casos extremos são a grande quantidade de lideranças indígenas e campesinos assassinados ou atropelados no Estado do Mato Grosso do Sul, a mãos de fazendeiros e seus capangas (pessoas que se encarregam da “segurança”), e que com toda impunidade continuam “semeando” pânico lá por onde vão.

" Empresas como a Iberdrola são e serão responsáveis pela masacre, expulsão e genocídio de povos originários"

Como bem mostra Luis Miguel Huarte em seu livro: Las multinacionales en el siglo XXI: impactos múltiples, uma situação parecida acontece no macro-empreendimento da hidroelétrica de Belo Monte – Pará, em que empresas como a Iberdrola são e serão responsáveis pela masacre, expulsão e genocídio de povos originários. Evidentemente para esses povos não existem caminhos fáceis para sua legítima participação politica. Assim se manifesta a “democracia” à brasileira, e não só brasileira. Os protestos pela obra não são novos e nem recentes. Vêm sendo denunciado os atropelos pelos diferentes blocos de cientistas (sobretudo os sociais), povos indígenas, movimentos sociais e demais setores da sociedade nacional. 

Povos que, nas ferramentas desse sistema (chamado) democrático não encontram (ou ao melhor nem existem, ou não interessa que existam) a chave para serem ouvidos, com seus tempos e organismos. Os tempos que ditam o tempo certo são determinados por outros.

A realidade e os tempos do capital se impõe e assombrados assistimos a uma espantada vergonhosa por parte dos politicos, que se autodenominam representantes do povo. Mas que povo é esse? Isso falta responder. Que ilustra essa fugida? Fugir implica no quê? O medo e o pânico acaso lhes fazem fugir de um espaço onde, só em teoria, as palavras prevalecem? Medo a quê? Tem alguma responsabilidade mal resolvida? Fugir de um grupo de lideres indigenas que com a cara pintada, entraram na casa do povo sem convite?

Assistimos como diz o arqueológo Raoni Valle, a uma guerra de baixa intensidade que já se encontra instalada também nas margens de outro rio amazônico, o Tapajós, pois nesse rio também vai ser construída uma barragem que simplesmente chega atropelando. Destaca o arqueólogo que diferentes estamentos do estado nacional, como a “Força Nacional de Segurança” (corpo altamente armado e violento, que usa táticas de guerrilha), amedrontaram e invadiram a finais do mês de março, usando táticas de assalto noturno, algumas comunidades Munduruku. Instauram o medo usando os seus fusiis, sobrevoando as comunidades com seus helicópteros ou percorrendo o rio com suas lançadeiras a grande velocidade. Na contramão disso, os indígenas com seus arcos, flechas e garrotes prometem lutar se não houver diálogo nesse processo de instalação, pois, entendem que as decisões de sua assembléia soberana não estão sendo consideradas.  

"A irrupção das lideranças indígenas no congresso nacional demonstra que estão vivos apesar do extermínio e o desprezo violento do presente" 

Para finalizar dizer que a irrupção das lideranças indígenas no congresso nacional demonstra que estão vivos apesar do extermínio e o desprezo violento do presente, que estão na luta e que ainda estando ilhados, sendo seus territórios diminuidos e invadidos, só querem deixar claro que é nessas instâncias impostas que têm que lutar por algo que não deveria ser sequer questionado, o direito à vida. 

Acredito que à luz dos acontecimentos uma releitura do clássico de Pierre Clastres A Sociedade contra o Estado realizado entre o povo indigena Guayaki, hoje autodenominado, Aché, seria muito elucidativa para entender quem foge de quem, ou quem deveria fugir de quem.

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